Nos últimos anos, ficou claro que o colírio de quimioterapia para algumas doenças da superfície ocular, especialmente o carcinoma da superfície do olho, pode funcionar QUASE tão bem quanto a cirurgia. E com uma vantagem óbvia: evitar levar o paciente ao centro cirúrgico. Mas como saber se é melhor tratar este câncer dos olhos com colírio de quimioterapia (mitomicina ou 5 fluoracila) ou com cirurgia?
Mas esse assunto merece alguns alertas importantes.
Primeiro ponto (e talvez o mais óbvio, mas frequentemente esquecido):
o colírio não confirma o diagnóstico.
E isso faz toda a diferença. Às vezes, o que parece carcinoma pode ser outra coisa — e a nossa maior preocupação é tratar como carcinoma algo que, na verdade, seja um melanoma melanótico.
Segundo ponto:
o colírio é fácil de usar. E isso é bom.
A ideia é empoderar o oftalmologista geral para tratar casos de oncologia ocular antes que fiquem avançados. Mas existe um paralelo importante aqui: se todo oftalmologista geral resolvesse operar todos os casos de retina, provavelmente muitos pacientes teriam resultados ruins. Ou seja, facilidade de uso não significa ausência de risco.
O colírio funciona, sim — mas exige estratégia, limites e acompanhamento. Além disso ele funciona em 60 a 80% dos casos enquanto a cirurgia trata o câncer em quase 100% dos casos!
O principal erro que vemos na prática é o uso prolongado demais.
Já recebemos pacientes que usaram mitomicina ou 5-FU por até seis meses. O resultado? Destruição da superfície ocular.
É fundamental lembrar: o colírio banha as células malignas, mas também atinge todas as células normais. A analogia com quimioterapia sistêmica é perfeita: é um veneno usado para matar o câncer causando o menor dano possível às células saudáveis. Por isso, na quimioterapia sistêmica existem pausas — para permitir recuperação do organismo.
Na superfície ocular, deveria ser igual.
Existem várias estratégias, geralmente assim:
- tratar por 7 dias
- pausar por 7 dias
- tratar por mais 7 dias
Total: 21 dias, sendo 14 de tratamento e 7 de pausa.
Depois disso, o paciente deve ser reavaliado.
Se não houve resposta, considere apenas mais um ciclo.
Se houve melhora parcial, com redução do tumor, o ciclo pode ser repetido — sempre com exame frequente.
Durante o tratamento, é esperado:
- olho vermelho
- ceratite
- desconforto
E, muitas vezes, é prudente pausar o colírio antes do previsto para permitir a recuperação da superfície ocular.
O maior perigo costuma estar justamente nos tumores pequenos: leucoplasias, displasias.
Com a melhor das intenções, o colega “manda bala” no colírio para destruir a lesão — e acaba passando do ponto. Depois, o paciente chega sem tumor, mas com defeito epitelial recorrente, limbo comprometido e uma qualidade de vida péssima.
Por tudo isso a cirurgia é o melhor tratamento e o colírio deve ser utilizado apenas em casos atípicos
Na imensa maioria das vezes, o paciente fica curado, o diagnóstico é confirmado e, após algumas semanas chatas de cicatrização, o olho volta ao normal.